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Calor, cerveja e corujas kafkianas
28/09/2008, 14:12:17
Novelas de ficção fantástica tipo Kafka, Gibson ou Orwell descreveriam bem nosso dia-a-dia perto das universidades.
Por André Gonçalves de Oliveira
Calor, cerveja e corujas kafkianas.
Tenho lido muita ficção ultimamente. Boas novelas de ficção têm sido minha alternativa para me contextualizar ao mundo sonoro-musical que me submeto por três dias na semana. Durante minhas quartas, quintas e sextas moro em frente à um estabelecimento frequentado por alunos de minha escola. Não extamente os meus alunos, o que ainda me alivia um pouco e me dá algum tempo.
Na universidade onde me graduei havia um grande canteiro central em uma rotatória em frente ao Centro de Letras e Ciência Humanas (CLCH). A grande extensão de gramado nos jardins da rotatória e ao redor dos prédios, servia de espaço para várias corujas construirem suas tocas. Me lembro de quão emblemático foi a imagem que avistei uma vez da janela do busão, em uma de minhas tantas passagens por aqueles jardins. Lá estavam duas corujonas em cima da placa que indicava o centro de ciências humanas. Parecia mesmo que alguém as tinha colocado lá como símbolo do conhecimento humano, da filosofia, da área das humanidades.
Daí fico pensando que durante minha meia semana prudentina, em meu quartinho de hotel, estou em uma espécie de novela Kafkiana ou Orwellina, ou ainda Gibsoniana. As corujas que habitam a toca defronte minha janela só poderiam ser consideradas símbolo máximo da ignorância humana plena. Surdas antes de mais nada, as habitantes daquela toca tocam em seus potentes auto-falantes automotivos coisas que não poderiam ser ditas nesse horário. Teria o sol e o calor desértico, vividos atualmente em nossa região, provocado mutações tão rápidas em nossas aves noturnas? Ou a cerveja é que aumenta violentamente os decibéis de seus pios, além de torná-los melados, algo como um emo-breganojo?
A poluição sonora é tão grande em alguns momentos, sobretudo quando os subgraves de dois ou três P.As sobre rodas se encontram e se misturam aos insuportáveis sons entubados e médio das duplas, expelidas a volumes homéricos pelos pares de cornetas enfileiradas nos portamalas. Fuck! Malditas corujas, podem continuar com seu pio emo-breganojo, porque eu ja consigo me enfiar na bolha e ler até Paidéia, apreciando o calor e a vista de minha sacada.
abraço.
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